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Vacina de COVID-19 para gestantes, lactantes e crianças: tudo o que você precisa saber!Tempo estimado de leitura: 15 minutos

Pouco tempo após o início da vacina de COVID-19 no Brasil, gestantes e lactantes foram incluídas no grupo prioritário e essa recomendação gerou um pouco de confusão na cabeça das pessoas. Além disso, a falta de perspectiva para a inclusão de crianças e adolescentes no calendário, me motivou a estudar sobre esses assuntos e trazer para vocês tudo o que precisamos saber sobre vacina contra COVID-19 em gestantes, lactantes e crianças.

Antes de começar, preciso deixar claro que tudo o que sabemos relacionado à COVID-19 é novo e novos estudos e dados surgem a todo o momento, podendo alterar as recomendações. Por isso, fique atento à data de publicação deste texto e deixarei disponível nas referências a data de acesso de todos os materiais que consultei.

Vacina de covid-19

Gestantes

Um grupo de pesquisadores de diversos países está conduzindo uma live meta-análise sobre covid-19 e vacinas em gestantes. Esse é um tipo de estudo que avalia resultados de outros estudos publicados sobre o tema e é atualizado constantemente conforme surgem novos resultados.

A primeira versão foi publicada em setembro do ano passado e foi atualizada em fevereiro de 2021, com 192 estudos incluídos e relatou alguns pontos importantes que vou explicar a seguir.

Mulheres gestantes, em comparação com mulheres não gestantes da mesma idade, quando contaminadas com COVID-19:

  • Apresentam menos sintomas como febre, dor de cabeça e falta de ar;
  • São mais propensas a precisar de internação em UTI e ventilação artificial;
  • Têm maior probabilidade de parto prematuro
  • Têm maior risco de morte materna
  • Os bebês nascidos de mulheres que tiveram COVID-19 na gestação têm maior probabilidade de serem internados na UTI neonatal.

Além disso, aqui no Brasil, dados do Boletim do Observatório COVID-19, da fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostram que as gestantes e puérperas (mulheres que tiveram filhos há até 45 dias) tem mortalidade de 7,2%, mais que o dobro da atual taxa de letalidade do país, que é de 2,8%.

Em um primeiro momento, quando vemos esses fatos, ficamos aliviados em saber que as gestantes foram incluídas no grupo de prioridade das vacinas, afinal, são um grupo que corre mais riscos. O problema aqui é que os estudos realizados até o momento para desenvolver as vacinas, excluem as gestantes.

Nesse post aqui eu expliquei melhor sobre as fases de desenvolvimento de uma vacina e todas as fases de estudos que são realizados antes de uma vacina ser aprovada para utilização na população e por isso elas são seguras. Vale a pena conferir. Acontece que, em um primeiro momento, as gestantes são excluídas desses estudos porque precisam de um acompanhamento diferenciado, para garantir que a vacina não cause efeitos colaterais na mãe ou no filho. Então, são conduzidos os primeiros estudos em animais gestantes e, somente quando for seguro nos animais, os estudos são realizados com humanas.

Como os estudos da vacina de COVID-19 são recentes e há uma grande parcela da população que precisa dessa vacina com urgência, os estudos foram tocados sem incluir as gestantes. No meio do caminho, algumas mulheres que já estavam incluídas e participando desses testes, descobriram a gravidez e continuaram sendo acompanhadas pelos pesquisadores. Até o momento, nenhum estudo relatou problemas dessas mulheres ou dos filhos com o uso da vacina, mas não sabemos no longo prazo, além de ser um número muito pequeno de mulheres e de estudos e os estudos não foram pensados especificamente para acompanhar os desfechos da gestação e de acompanhamento do bebê. Então precisamos ter cautela.

Mas Gi, então por que os governos de todos os países e, inclusive sociedades de obstetrícia, recomendam a vacina?

Porque o risco de tomar a vacina é menor do que o risco de não tomar a vacina e contrair COVID-19 na gestação!

E, para além disso, eu sempre falei aqui e nesse caso vale MUITO mais: mesmo com a vacinação, precisamos continuar com todos os cuidados de isolamento e uso de máscara porque ainda são os mais eficientes na prevenção contra a COVID-19. No caso da gestação, o que as sociedades de obstetrícia recomendam é que as mulheres podem discutir os benefícios e riscos de receber a vacina com seu obstetra e chegar a uma decisão conjunta com base nas circunstâncias individuais. Se você está 100% isolada e não tem risco de contrair a doença, talvez seu médico recomende que não tome a vacina. Mas se você tiver a menor possibilidade de se contaminar, seja porque o filho está na escola, ou porque você ou marido trabalha fora, é mais indicado tomar a vacina do que correr o risco de contrair a forma grave da doença e até risco de morte.

A última recomendação do Observatório COVID-19 da Fiocruz recomenda que a vacinação de gestantes e puérperas deve ser realizada com as vacinas de tecnologia que não utilizam vetor viral, que nesse caso aqui no Brasil temos disponíveis a Coronavac e a Pfizer. Gestantes que tomaram a primeira dose da vacina da AstraZeneca foram instruídas a tomar a segunda dose da vacina da Pfizer por determinação da Anvisa de suspender a vacina da AstraZeneca nessa população.

Vacina da AstraZeneca e gestação

Eu não queria deixar esse texto muito longo, mas acho importante trazer todas as informações para vocês. Minha ideia é apresentar os dados e ajudar você a tomar suas decisões, com pensamento crítico e análise, então vamos lá! Por que a vacina da AstraZeneca foi suspensa para gestantes?

Uma gestante morreu decorrente de um acidente vascular cerebral após tomar a vacina. Esse caso, somado a alguns relatos de casos de trombose em outros países, fizeram com que a Anvisa tomasse essa medida como forma de prevenção. A Anvisa relata que as circunstâncias da morte ainda estão sendo investigadas e que esse é um evento adverso grave relatado pelo próprio fabricante, porém extremamente raro. Vale ressaltar que a COVID-19 é considerada uma doença vascular e com alto risco de desenvolver coágulos. Essa foi uma medida cautelar para a população gestante e a Anvisa afirma que a vacina da AstraZeneca é segura para as outras pessoas.

Estou grávida e tomei a primeira dose da AstraZeneca, e agora?

Oficialmente, após a determinação da Anvisa, algumas cidades autorizaram a aplicação da vacina da Pfizer em gestantes que tomaram a primeira dose da AstraZeneca após a publicação de um estudo realizado no Reino Unido comprovando a eficácia e segurança dessa prática. Mais uma vez esse estudo não foi conduzido com gestantes.

Então aqui a recomendação é a mesma: avaliar cada caso individualmente. Se você tomou a primeira dose, mas consegue se manter isolada e sem risco de contaminação, converse com seu médico sobre a melhor opção. Agora se você está exposta e pode se contaminar, o risco de tomar a segunda dose é menor do que o risco de se infectar com COVID-19, então é melhor tomar a vacina. Sempre com recomendação do seu obstetra de acordo com o seu contexto, ok? Como os estudos não foram realizados com gestantes e não sabemos os efeitos dessa mistura no longo prazo, a recomendação é de que as gestantes que tomarem a segunda dose de outro fabricante e outra tecnologia precisam ser acompanhadas de perto.

IMPORTANTE: A tecnologia utilizada na vacina fabricada pela Janssen, que tem dose única, é a mesma da AstraZeneca (vetor viral) e, portanto, também não é recomendada para gestantes.

Lactantes

Ao contrário das gestantes, as lactantes não apresentam maior risco de gravidade para COVID-19, mas as mulheres que defendem a inclusão desse grupo na prioridade da vacinação, defendem a teoria de 2 em 1, que significa que ao vacinar a mãe, os filhos também receberam anticorpos. Essa teoria faz sentido. Vi alguns estudos feitos especificamente com lactantes e seus bebês e eles indicam que as vacinas disponíveis contra a COVID-19 são seguras para as lactantes e para os bebês, e mostram também que os anticorpos produzidos pela mãe após a vacina são encontrados no leite materno e podem proteger os bebês.

O que os estudos ainda não concluíram é por quanto tempo esses anticorpos presentes no leite materno protegem os bebês. Será o suficiente para que essas crianças não precisem se vacinar no futuro? Ainda não sabemos, mas sabemos que esses bebês estão recebendo esses anticorpos e, pelo menos temporariamente, estão protegidos!

Outra observação muito interessante aqui é que temos um estudo feito no Brasil, por pesquisadores do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da USP, que mostra que algumas mulheres que receberam a Coronavac fabricada no Instituto Butantan apresentaram anticorpos no leite materno mesmo após alguns meses de amamentação e os bebês têm sido monitorados para acompanhamento da presença de anticorpos. É muito importante termos estudos realizados na nossa população, porque mostram a nossa realidade, então são mais confiáveis para o nosso contexto.

Nesse caso, como não há risco aumentado para os bebês e nem para as mães, não há contraindicação de nenhuma das vacinas disponíveis.

Crianças

Na semana passada o Butantan enviou à Anvisa um pedido de aprovação para a vacinação de crianças. Esse pedido é uma surpresa, pois os resultados dos estudos de fase 3 nessa população ainda não foram publicados (volte nesse post para entender o que é um estudo de fase 3 para aprovação de vacinas). Os estudos de fase 2 revelaram ótimo perfil de segurança, com efeitos colaterais muito leves, e formação de anticorpos neutralizantes em 96% dos participantes e zero no grupo placebo (que não recebeu a vacina).

A Pfizer também tem conduzido estudos de fase 3 nessa população e, inclusive, é desse estudo que foi vacinada a criança mais jovem: um bebê de 10 meses. Há uma previsão de publicação dos resultados dos estudos nas crianças entre 2 e 11 anos de idade em setembro.

Essa semana, Israel liberou emergencialmente a vacinação entre 3 e 11 anos para crianças com alto risco para complicações da COVID-19. Essa decisão foi considerada ousada exatamente pela ausência de resultados dos estudos com mais pessoas. Na china a Coronavac também já foi liberada para crianças entre 3 e 11 anos de idade.

Para decidir sobre vacinar ou não, caso a Anvisa acate o pedido do Butantan levanta três grandes questões:

1 – É necessário?

Sabemos que a COVID-19 raramente causa doença grave em crianças (leia aqui um post que fiz sobre o assunto). Mas algumas ficam muito doentes (0,03% ou menos de óbitos) além do risco (baixo também) de covid prolongada e de síndrome inflamatória (rara). No Reino Unido, por exemplo, a decisão foi vacinar apenas adolescentes com comorbidades, ou que vivam com adultos vulneráveis. Mas há outros fatores em jogo: pediatras temem a coinfecção (infecção simultânea com o vírus da gripe ou pneumococo) com outras doenças comuns, como a bronquiolite, por exemplo. E do ponto de vista populacional, a vacinação de crianças e adolescentes seria importante para reduzir de vez a circulação do vírus. E afinal, podem surgir novas variantes que afetem mais seriamente os pequenos.

2 – É seguro?

Até o momento, Pfizer e Moderna mostraram segurança em adolescentes, e a Coronavac em crianças (ainda em pequeno grupo). Nos Estados Unidos se fala em vacinar menores de 12 ainda este ano.

Recentemente o Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos divulgaram casos de miocardite e pericardite (Miocardite é a inflamação do músculo do coração e pericardite é a inflamação do revestimento externo do coração). Os sintomas podem incluir dor no peito, falta de ar ou palpitações em jovens que tomaram a vacina da Pfizer. Entretanto, ainda não foi estabelecida uma relação causal, ou seja, ainda não temos provas de que essas inflamações realmente foram causadas pela vacina. Além disso, os casos são raros e praticamente todos se recuperaram.

Aqui no Brasil ainda não tivemos nenhum relato desse tipo de relação adversa, mas acho importante esperar os resultados dos estudos de fase 3 nas crianças para garantir que não haja, realmente, risco.

3 – É justo?

O diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que os países mais ricos que estão vacinando crianças estão usando doses que poderiam ser destinados à profissionais de saúde e grupos de alto risco de outros países mais pobres, uma vez que alguns países compraram doses em excesso e poderiam doar para quem precisa mais.

Entretanto, eu acredito que a melhor distribuição mundial das vacinas deveria ser organizada pela própria OMS, não cabe a nós, indivíduos, negar vacina disponível por uma questão que cabe à governos e instituições reguladoras.


Minha opinião? Acho importante vacinar, sim, uma vez que se demonstre segurança nos resultados dos estudos com maior quantidade de pessoas.

Eu sei que o conteúdo ficou grande, mas é um assunto muito sério e importante, não me sentiria confortável em trazer para vocês informações incompletas. Como disse no início, deixo a data e links de todos os estudos que consultei para a elaboração desse material e estou à disposição caso tenha qualquer dúvida.

Espero que esse conteúdo te ajude a refletir e tomar a melhor decisão quanto à vacinação se você estiver inclusa em um desses três casos! Mas o fato é que, sem avançar na vacinação com a maior quantidade de pessoas possível, não conseguiremos nos livrar tão cedo dessa pandemia que tanto tem nos afligido.

De mãe em mãe, construiremos um novo maternar.

Referências

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Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Boletim Observatório COVID-19. Semanas Epidemiológicas 20 e 21. Acesso em: 06/08/2021. Clique aqui e leia o boletim completo.

The Society of Obstetricians and Gynaecologists of Canada. SOGC Statement on COVID-19 Vaccination in Pregnancy. Publicado em 18 de dezembro de 2021 e atualizado em 25 de maio de 2021. Acesso em: 06/08/2021. Clique aqui para ler na íntegra.

Associação de Obstetrícia e Ginecologia de Santa Catarina. Associação de Ginecologia e Obstetrícia do Estado do Rio de Janeiro. Declaração de consenso (SCORJ/SOGISC) para vacinação contra SARS-Cov-2. Acesso em: 06/08/2021. Clique aqui para ler o consenso na íntegra.

Royal College of Obstetricians & Cynaecologists. COVID-19 vaccines, pregnancy and breastfeeding. Atualizado em: 19 de julho de 2021. Acesso em 06/08/2021. Clique aqui e leia o posicionamento completo.

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Jornal da USP. Anticorpos da covid-19 em mães vacinadas estão presentes no leite materno, diz estudo. Publicado em: 16/06/2021. Acesso em: 06/08/2021. Clique aqui e veja na íntegra.

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Brasil. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Anvisa alerta sobre risco de miocardite e pericardite pós-vacinação. Publicado em: 09/07/2021. Acesso em: 06/08/2021. Clique aqui para ler a matéria completa.

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