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Revisão sistemática e meta-análise dos efeitos da ingestão enteral de proteína no crescimento de bebês prematuros

Desde que o filósofo alemão Ludwig Feuerbach cunhou a célebre afirmação de que “o homem é o que come”, há quase dois séculos, a ciência vem confirmando, de forma consistente, o papel central da nutrição na determinação da saúde humana. No entanto, esse protagonismo da alimentação se manifesta hoje em um cenário paradoxal. Um novo estudo publicado na Pediatric Research e revisado sistematicamente aponta que a quantidade de proteína fornecida por via enteral em recém-nascidos muito prematuros tem impacto direto no seu crescimento, especialmente no ganho de peso e na estatura ao receber alta hospitalar. A pesquisa, primeiro a combinar ensaios clínicos que mediram realmente a ingestão de proteína, analisou dez ensaios clínicos randomizados com 646 prematuros com menos de 32 semanas de gestação, todos alimentados com leite humano fortificado — padrão de nutrição recomendado para esse grupo vulnerável.

Os resultados mostram que há uma relação significativa e linear entre a quantidade de proteína ingerida e o ganho de peso: para cada grama adicional de proteína por quilo por dia, o ganho de peso aumentou em média 5,73 g/kg/dia. Após ajustes estatísticos que consideraram a ingestão energética total, a proteína também esteve associada a maior crescimento em comprimento — outro marcador crítico de desenvolvimento.

Entretanto, quando os pesquisadores compararam de forma convencional grupos com dietas de proteína “alta” versus “baixa”, os resultados foram mais sutis. Embora não tenham encontrado diferenças significativas no ganho de peso ou circunferência da cabeça durante os períodos de intervenção, bebês que receberam mais proteína apresentaram peso maior ao receber alta e crescimento em comprimento mais pronunciado. Esses achados foram considerados de certeza moderada a alta pelos critérios GRADE, o que confere maior confiança aos resultados.

Além de oferecer evidências quantitativas, o estudo destaca que as recomendações atuais de proteína para prematuros (3,5–4,0 g/kg/dia) podem ser insuficientes para imitar as taxas de crescimento intrauterino. A análise sugere que muitos prematuros poderiam necessitar de 4,0–4,5 g/kg/dia para alcançar um crescimento mais próximo ao que ocorreria no útero, embora isto ainda demande confirmação em estudos futuros.

Especialistas também chamam atenção para os desafios metodológicos da literatura existente. Muitos estudos anteriores não mediam diretamente a ingestão real de proteína ou confiavam em estimativas baseadas no volume de leite, o que pode subestimar ou superestimar as quantidades efetivamente absorvidas pelos neonatos. Ao incluir apenas ensaios com medidas precisas, a meta-análise aumentou a robustez das conclusões, mas também realça a necessidade de padronização em pesquisas nutricionais neonatais.

O estudo reforça que nutrição adequada nos primeiros dias de vida é um dos pilares para reduzir a falha de crescimento pós-natal — um importante determinante de desfechos neurodesenvolvimentais a longo prazo em prematuros. Profissionais de saúde neonatal podem considerar esse corpo de evidências ao otimizar protocolos de fortificação do leite humano, sempre equilibrando proteína e energia para evitar complicações metabólicas.

A revisão reforça que a ingestão adequada — e possivelmente mais elevada — de proteína por via enteral é um fator decisivo para o crescimento de recém-nascidos muito prematuros, especialmente no ganho de peso e no crescimento linear até a alta hospitalar. Os dados indicam que estratégias nutricionais mais precisas, baseadas na ingestão real de proteína e não apenas em estimativas, podem contribuir para reduzir a falha de crescimento pós-natal. Apesar dos resultados consistentes, o estudo destaca a necessidade de novos ensaios clínicos que definam com maior clareza os limites seguros e ideais de oferta proteica, equilibrando benefícios de crescimento com segurança metabólica.

Fonte: Sanchez-Holgado M, Johnson MJ, Witte Castro A, Criado Camargo S, van den Akker CHP, Alvarez-García P, Cabrera-Lafuente M, Jiménez Varas MÁ, Saenz de Pipaon M. Systematic review and meta-analysis of enteral protein intake effects on growth in preterm infants. Pediatr Res. 2025 Nov;98(5):1696-1710. doi: 10.1038/s41390-025-04115-9. Epub 2025 Jun 5. PMID: 40473805; PMCID: PMC12602309.

Link:https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40473805/

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