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Dieta vegana na infância e adolescência: evidências atuais sobre crescimento e estado nutricional segundo a ESPGHAN

Dieta vegana e estado nutricional em bebês, crianças e adolescentes: um documento de posicionamento baseado em uma pesquisa sistemática realizada pelo Comitê de Nutrição da ESPGHAN – Sociedade Europeia de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica.

O aumento expressivo da adesão a dietas exclusivamente à base de plantas nas últimas décadas tem ampliado o debate científico sobre seus impactos à saúde em diferentes fases da vida. No contexto pediátrico, essa discussão ganha contornos ainda mais sensíveis, uma vez que crescimento, desenvolvimento e maturação metabólica dependem de adequada oferta nutricional. É nesse cenário que se insere o documento de posicionamento do Comitê de Nutrição da Sociedade Europeia de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica (ESPGHAN), publicado em 2025, que avalia de forma sistemática os efeitos da dieta vegana sobre o estado nutricional de bebês, crianças e adolescentes.

A popularidade das dietas veganas é impulsionada por múltiplos fatores, que incluem preocupações éticas com o bem-estar animal, motivações ambientais — como a redução da pegada de carbono e da emissão de gases de efeito estufa —, além de razões culturais, religiosas e percepções de benefício à saúde. Dados da Euromonitor International indicam que, em 2021, cerca de 3,4% dos europeus declararam seguir uma dieta vegana, percentual que pode chegar a 4,5% em alguns países ocidentais. No entanto, permanece incerta a adesão e, sobretudo, o rigor com que esse padrão alimentar é seguido por populações pediátricas.

Apesar do consenso entre sociedades científicas de que a vitamina B12 é um nutriente essencial ausente em dietas estritamente veganas, persistem controvérsias quanto à suficiência global desse padrão alimentar na infância e adolescência. Outras preocupações incluem a quantidade e a qualidade das proteínas vegetais, cuja digestibilidade e perfil de aminoácidos essenciais, de modo geral, são inferiores às proteínas de origem animal. Embora proteínas vegetais isoladas, como a de soja, apresentem digestibilidade comparável à animal, alimentos vegetais integrais frequentemente apresentam menor aproveitamento protéico, o que pode exigir ingestão quantitativamente maior para atender às necessidades fisiológicas.

As dietas baseadas em plantas englobam diferentes padrões alimentares, com graus variados de exclusão de alimentos de origem animal, o que pode resultar em impactos distintos sobre a saúde. As dietas vegetarianas excluem a carne e seus derivados, podendo ou não incluir outros produtos animais. Entre elas, destacam-se o padrão pesco-vegetariano, que inclui peixes e frutos do mar, além de ovos e laticínios, e o ovolactovegetariano, que permite o consumo de ovos e leite, mas exclui carnes e pescados.

A dieta vegana representa a forma mais restritiva desse espectro, excluindo todos os alimentos de origem animal, como carnes, ovos, laticínios e até mel. Existem ainda subgrupos ainda mais restritivos, como a dieta crudívora, baseada em alimentos vegetais crus ou minimamente processados e evita alimentos aquecidos a temperaturas superiores a 50 °C, e a frutariana, composta exclusivamente por frutas. No contexto da infância, o aleitamento materno é considerado parte fundamental da nutrição de bebês veganos, uma vez que, apesar de não ser um alimento de origem vegetal, não envolve exploração ou dano aos animais.

dieta vegana

O artigo nasce como desdobramento de um posicionamento anterior da ESPGHAN, publicado em 2017, que recomendava a introdução de alimentos ricos em ferro — incluindo carnes — na alimentação complementar, além de alertar que dietas veganas não deveriam ser adotadas na infância sem adequada supervisão médica e nutricional. Diante da escassez de evidências recentes e robustas, o Comitê de Nutrição da ESPGHAN propôs uma revisão sistemática com o objetivo de analisar os efeitos da dieta vegana sobre crescimento, adequação nutricional e biomarcadores laboratoriais em bebês, crianças e adolescentes, comparando-os a indivíduos com dieta onívora.

A revisão foi conduzida de acordo com as diretrizes PRISMA e estruturada segundo a metodologia PICO, abordando três questões centrais: diferenças nos parâmetros de crescimento e antropometria; ingestão alimentar e inadequações nutricionais; e alterações em biomarcadores laboratoriais. A busca sistemática abrangeu as bases MEDLINE/PubMed, EMBASE e Cochrane Library, incluindo estudos publicados entre janeiro de 2008 e outubro de 2023. Inicialmente, foram identificados 978 artigos. Após a exclusão de registros duplicados, 808 estudos tiveram títulos e resumos analisados em processo duplo-cego. Foram excluídos artigos irrelevantes, estudos envolvendo padrões alimentares distintos do veganismo, populações não pediátricas, tipos de publicação inadequados, artigos em idiomas diferentes do inglês e estudos com desfechos não pertinentes. Ao final desse processo, 71 artigos foram avaliados na íntegra, dos quais apenas 10 atenderam integralmente aos critérios de inclusão e foram incorporados à revisão final. Esses estudos forneceram dados sobre aproximadamente 1.500 crianças e adolescentes que seguiam dieta vegana. Adicionalmente, três revisões sistemáticas e meta-análises relevantes foram identificadas e incluídas como suporte contextual.

No desfecho relacionado ao crescimento, os dados indicam que crianças e adolescentes veganos apresentam: 

  • estatura ligeiramente menor em valores absolutos quando comparados aos onívoros, porém ainda dentro da faixa considerada normal para a idade
  • não foram observadas diferenças consistentes nos escores de índice de massa corporal (IMC) entre os grupos. 

Contudo, a heterogeneidade metodológica dos estudos e a ausência de informações sobre acompanhamento nutricional profissional limitam a robustez dessas conclusões, tornando as evidências inconclusivas.

Quanto à ingestão alimentar, a revisão aponta que crianças e adolescentes veganos apresentam:

  • ingestão energética semelhante à dos onívoros
  • atingem as recomendações de proteína estabelecidas pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA). 
  • maior consumo de carboidratos e fibras e dentro das recomendações para crianças maiores e adolescentes. 
  • perfil lipídico da dieta vegana mostrou-se qualitativamente superior, com menor ingestão de ácidos graxos saturados e maior aporte de ácidos graxos poli-insaturados. 
  • alto risco de inadequação na ingestão de vitamina B12 e cálcio, além de incertezas quanto à suficiência de outros micronutrientes.

A análise de biomarcadores laboratoriais revelou que crianças e adolescentes veganos, sem suplementação, apresentam:

  • níveis mais baixos de colesterol total, LDL e HDL, sendo que os valores de HDL situaram-se no limite inferior das faixas de referência. 
  • risco elevado de deficiência de vitamina B12 em todas as faixas etárias
  • risco elevado de deficiência de vitamina D
  • os níveis médios de ferritina e hemoglobina permaneceram dentro da normalidade, porém os dados sugerem possível depleção dos estoques de ferro 
  • risco potencial de anemia (ainda que as evidências sejam inconclusivas)

Em síntese, o documento conclui que:

  • as publicações atuais não relataram se as crianças e seus cuidadores receberam aconselhamento nutricional profissional ou orientações dietéticas adequadas
  • dietas veganas nutricionalmente adequadas, capazes de sustentar crescimento e desenvolvimento normais em bebês, crianças e adolescentes, são teoricamente possíveis, mas não podem ser confirmadas com base nas evidências atualmente disponíveis. 
  • diante do baixo nível de evidência — majoritariamente observacional — e das lacunas identificadas, a ESPGHAN reforça que dietas veganas na população pediátrica exigem acompanhamento rigoroso, aconselhamento nutricional especializado e suplementação de micronutrientes críticos, especialmente vitamina B12, ferro, cálcio e vitamina D. 
  • O posicionamento destaca, ainda, a necessidade urgente de estudos prospectivos bem delineados e ensaios clínicos de alta qualidade para fundamentar recomendações mais seguras e precisas no futuro.

RECOMENDAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA DE ROTINA

Estas recomendações baseiam-se em estudos observacionais, revisões sistemáticas e meta-análises que foram obtidos através de uma busca sistemática na literatura. Considerando as evidências atualmente disponíveis, o Comitê de Nutrição da ESPGHAN recomenda:

Crescimento

A abordagem para monitorar o crescimento e o desenvolvimento em crianças veganas deve ser semelhante à da população pediátrica em geral.

Acompanhamento nutricional

Crianças veganas devem receber acompanhamento regular de um nutricionista pediátrico qualificado para garantir crescimento e desenvolvimento adequados. Na ausência desse suporte, recomenda-se uma abordagem de saúde pública com orientações claras e baseadas em evidências científicas.

Necessidades energéticas

Dietas veganas para bebês, crianças e adolescentes devem atender às mesmas necessidades energéticas adequadas à idade recomendadas para a população pediátrica em geral.

Proteínas

Crianças veganas podem necessitar de maior ingestão proteica devido à menor digestibilidade das proteínas vegetais. A avaliação deve ser individualizada, considerando quantidade e qualidade para assegurar a ingestão adequada de aminoácidos essenciais.

Ácidos graxos ômega-3

O consumo regular de alimentos ricos em ALA (ácido alfa-linolênico) é essencial. A suplementação de DHA à base de algas pode ser considerada, com dose ajustada à idade, especialmente para crianças menores de dois anos.

Ferro

Deve-se priorizar a ingestão de alimentos ricos em ferro associados a fontes de vitamina C, que aumentam sua absorção. É importante orientar sobre fatores que reduzem a absorção, como fitatos, polifenóis, cálcio e ácido oxálico. A suplementação de ferro deve ser considerada a partir dos seis meses em bebês amamentados e em crianças com ingestão inadequada.

Cálcio

Recomenda-se manter o aleitamento materno e/ou a fórmula infantil por pelo menos 12 meses, até que a dieta esteja nutricionalmente completa. O foco deve ser o consumo de alimentos e bebidas fortificados com cálcio, além de suplementação quando necessário.

Vitamina B12

Crianças veganas devem consumir alimentos fortificados com vitamina B12 e receber suplementação diária em doses adequadas à idade.

Vitamina D

A suplementação de vitamina D deve ser considerada durante toda a infância e adolescência, especialmente em casos de baixa exposição solar. Quando a ingestão de cálcio for insuficiente, indica-se a suplementação combinada de vitamina D e cálcio.

Biomarcadores de laboratório

Monitoramento da vitamina B12

Os parâmetros metabólicos da vitamina B12, como a vitamina B12 plasmática, o ácido metilmalônico (MMA) plasmático e/ou a homocisteína plasmática, devem ser monitorados em todas as crianças e adolescentes veganos, especialmente durante períodos de crescimento acelerado e/ou quando houver suspeita de ingestão ou suplementação inadequada.

Avaliação de outros parâmetros bioquímicos

Outros marcadores bioquímicos, como os níveis de vitamina D e ferro, devem ser avaliados sempre que houver suspeita clínica de deficiência e/ou ingestão nutricional insuficiente.

Fonte: Verduci E, Kӧglmeier J, Haiden N, Kivelä L, de Koning B, Hill S, Luque V, Moltu SJ, Norsa L, De Pipaon MS, Savino F, Bronsky J. Vegan diet and nutritional status in infants, children and adolescents: A position paper based on a systematic search by the ESPGHAN Nutrition Committee. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2025 Nov;81(5):1318-1345. doi: 10.1002/jpn3.70182. Epub 2025 Aug 17. PMID: 40819279; PMCID: PMC12580465.
Link: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12580465/#jpn370182-sec-0350

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